Depois de fazer cicloturismo pelo Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, e fazer algumas viagens de bicicleta pelo Brasil, a Ada Cordeiro resolveu sair sozinha para um pedal “básico” por toda América do Sul. Afinal, por que não?

Foram quase dois anos de viagem, 23.000 km pedalados e 12 países percorridos: Uruguay, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, até Venezuela (só um cantinho, mas rolou), Guiana, Suriname, Guiana Francesa e no Brasil parte da Amazônia e praticamente todo litoral. Tudinho registrado no blog PedalADAs.

A Ada tem 35 anos, é de Minas Gerais e trabalha como servidora pública em Brasília. A companheira mór dela nessa aventura foi a Branquinha, sua mountain bike Specialized Myka.

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A gente começou a acompanhar por redes sociais a viagem dela quando nós estávamos organizando a nossa viagem de carro pela América do Sul. Então foi mega inspirador ver por onde ela estava passando! Voltamos de viagem na mesma época e agora entrevistamos ela para saber mais detalhes da jornada.

Leia a entrevista na íntegra ou clique abaixo para ir a uma seção específica:

Planejamento Viagem de Bicicleta: Cicloturismo na América do Sul

1. Como surgiu a ideia de viajar pela América do Sul de bicicleta?

Não se assustem pessoas..Sim…eu era feliz antes da viagem, mas exatamente por isso resolvi mudar…sair da minha rotina, da minha zona de conforto, resolvi desapegar das coisas, pra apegar à sensações, sentimentos…escolher passar por esta experiência não foi em função de insatisfação, tristeza, desamor, de achar que faltava algo e que saindo por aí eu iria encontrar. Ou mesmo que eu esteja pagando alguma promessa…nada disso!!!

Foi simplesmente para poder me presentear com sensações, vivências, experiências, que caso eu permanecesse no “meu mundo” jamais teria oportunidade de experimentar…isso tudo vem da vontade de conhecer o novo, de sentir no coração aquela certa ansiedade de não saber como será o caminho amanhã…da vontade de sentir o vento no rosto, sentir-se viva e em movimento…

A vida era pra ser assim, mas a gente se habitua a nossa rotina, que muitas vezes é inevitável…mas eu quis poder fazer diferente, e eu podia, então resolvi ir tentar e lá vou eu…

A bicicleta é algo que cada dia mais faz mais parte da minha vida e de uma forma muito especial o cicloturismo também veio pra me fazer mais feliz…foi numa simples e inocente viagem de bicicleta, há quase dois anos atrás que isso tudo começou…esse amor, pela bicicleta, pela estrada, pelo sentimento lindo de poder chegar onde se desejar com a força de suas pernas…simples assim…por essa forma leve, sem pressa, desapegada de ver a vida e de se relacionar com ela, e por isso resolvi colocar os pés na estrada !!!

2. Antes da viagem costumava fazer pedais de quantos Km e com qual frequência?

Sempre gostei de bicicleta. Na época da universidade usava como meio de transporte e também nos finais de semana para prática de esportes.

Nos 2 anos que antecederam a viagem, passei a usar ainda mais a bicicleta. Utilizava como meio de transporte, para ir ao trabalho e resolver assuntos do dia-a-dia, mas também usava pra pedalar com grupo de amigos nos finais de semana.

A frequência de uso da bike era praticamente diária, mas a quilometragem variava muito. No mínimo 16km/dia para ir e voltar do trabalho, em média.

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3. Como você definiu o período de tempo que passaria nessa missão?

Eu saí com o propósito de viajar por um ano. Julgava esse tempo suficiente para chegar a Colômbia, essa era a meta.

Tinha feito uma reserva financeira para me sustentar por este período. E consegui uma licença no meu trabalho esse período.

No decorrer da viagem, vi que podia me sustentar com muito menos que o previsto e que a viagem era algo que me fazia sentir muito bem.

Pedi então mais um ano de liberação no trabalho (trata-se de licença sem remuneração para tratar de interesses particulares, um direito dos servidores públicos) e, com a liberação dos meus chefes, pude então seguir viagem. Foram quase dois anos na estrada.

4. Como foi o processo de planejamento e preparação?

Eu diria que a viagem começa muito antes da gente colocar o pé na estrada. Ela começa quando a gente começa a sonhar com ela….

A minha preparação em especial, foi longa. Um ano e meio antes comecei a me preparar…a sonhar, a desejar e imaginar isso tudo realizado!

Nesse período me preocupei também em comprar alguns itens que julgava importantes, como: barraca, alforjes, fogareiro, bagageiros, equipamentos fotográficos, roupas…

Pensei no roteiro que gostaria de fazer.

Também fiz uma reserva financeira. Pensava em viajar apenas um ano e não estava nos planos parar pra trabalhar no caminho.

Uma preparação muito importante foi a psicológica. Essa é fundamental, mas não sei se é tão fácil. Por mais que você se imagine na estrada, estar na estrada é muito diferente. Eu diria que o psicológico comanda quase tudo e se você está tranquila, bem consigo e consciente do seu desejo as coisas vão fluir de uma maneira bem melhor.

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5. Como era o seu dia a dia antes da viagem?

Antes da viagem tinha uma vida dita “normal”. Morava na cidade de Brasília, tinha uma rotina normal…com horários de trabalho. Mas minha vida nunca se resumiu ao trabalho.

Sempre gostei de atividades físicas. No último ano antes de viajar, fazia aulas de yoga, circo e participava de um grupo de percussão musical. Adorava sair pra cachoeiras em finais de semana ou sempre que possível.

Na Estrada de Bike: Cicloturismo na América do Sul

6. Como era um dia “normal” seu na estrada?

Na estrada a rotina era não ter rotina. Mas isso, infelizmente é impossível, né?

Bom, basicamente era tomar aquele café da manhã, preparar as coisas (desmontar acampamento, se for o caso) e pegar estrada.

O bom era não saber o que ia acontecer, por onde ia passar, as pessoas que iria encontrar. Essa incerteza era boa, esse friozinho na barriga de não saber o que ia acontecer, onde ia parar, onde ia dormir era muito bom….

E normalmente, no fim do dia tudo se passava bem e ótimas experiências aconteciam.

As preocupações se resumiam em acordar, pedalar, comer e procurar um lugar seguro pra passar a noite. O resto era diversão e alegria!

Mas, ao contrário do que muitos pensam, eu não pedalava todos os dias…pedalava, ás vezes 3 ou 4 dias e parava alguns dias pra descansar, organizar a vida, lavar roupas etc.

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7. Como foi a experiência de viajar sozinha?

Pra mim até hoje foi a melhor experiência da minha vida.

Posso resumir em superação de medos, empoderamento pessoal, muito (muito!) autoconhecimento, a descoberta de que o mundo é sim feito de pessoas boas!!!

8. Quais foram os maiores desafios?

Acho que o maior desafio é a partida, sair da nossa zona de conforto, quando tudo está muito bom não é nada fácil. Mas eu gosto de ver as coisas em movimento e a vontade de mudar foi um dos grandes motivadores da partida.

Em seguida, o fato de estar sozinha…é muito importante você não ter medo de estar consigo mesmo. Estar bem internamente é algo que facilita muito. As relações com outras pessoas serão bem mais fáceis. E é um aprendizado muito grande. O fato de estar sozinha nos possibilita um maior contato conosco, mas também com o outro. Existem situações que só vão acontecer quando você está só. Isso é muito bom.

A adaptação à vida na estrada foi fácil, quando você faz o que gosta não existe dificuldade. Mas alguns trechos da viagem foram muito duros…passei por invernos rigorosos em que eu não estava acostumada, com temperaturas de -15°, como no norte do Chile e Salar de Uyuni na Bolívia. Acostumar a pedalar com muito frio foi complicado, mas nestas horas vemos como o nosso corpo é extremamente adaptável a todas as situações. É realmente incrível.

Outro grande desafio foram as duras subidas. Acostumar a pedalar a mais de 3.000 metros de altitude também foi uma prova de superação. Eu cruzei a Cordilheira dos Andes por várias vezes, realizando subidas muito longas, de ás vezes mais de 40 km e com um desnível impressionante (cheguei a pedalar a 4.800 m de altitude no Equador)!

Pedalei nas subidas mais duras de toda América do Sul, mas, também isso foi um aprendizado. Em nenhum momento desviei meu caminho em virtude das possíveis dificuldades que encontraria. No caso as subidas fazem parte, são como as dificuldades da vida. É preciso, calma e paciência para superá-las, mas a superação traz muita sabedoria e crescimento pessoal.

Apesar de ser extremamente desgastante a parte física, na maioria das vezes o mais importante é o fator psicológico, acreditar no seu propósito é o que vai te conduzir até o final.

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9. Chegou a se sentir ameaçada em algum momento?

Não…os maiores medos são internos, na nossa cabeça…de ficar fantasiando coisas que muitas vezes não existem.
Eu já cheguei a sentir medo de algumas pessoas que paravam os carros e me abordavam na estrada. Num primeiro momento ás vezes tinha medo, mas depois eles só queriam saber da minha história ou tirar uma foto. Ás vezes até ofereciam ajuda sem que eu pedisse.

Foram tantas situações como essas, mais no início da viagem, onde eu ainda estava impregnada com esse medo imposto pela sociedade, que nos massacra todos os dias com os noticiários dizendo que as pessoas são ruins. Mas depois, eu fui vendo, no meu dia-a-dia que era diferente… na verdade as pessoas, em sua grande maioria, são boas…Então eu sempre que vou ao encontro de uma pessoa penso que ela tem algo de bom e só com este pensamento as coisas boas acontecem…

Na verdade é isso, o que desejamos é o que normalmente acontece e o mundo é uma cadeia de reações. Tenha boas ações e pensamentos e, sem que você perceba, isso volta pra você.

Mas, com a viagem aprendi a respeitar muito a natureza e sua força inacreditável. Os poucos momentos que me vi em perigo foram por alguma força natural que estava fora do meu controle: forte vento, uma ressaca no oceano Pacífico em que quase me afoguei, na floresta amazônica, na Guiana, em uma estrada deserta em que vi pegadas de onça…mas foram todas situações que terminaram bem!

10. Qual foi sua média de orçamento mensal?

Saí com um orçamento de R$70,00 por dia. Pensava em viajar por um ano.

Mas depois, no decorrer da viagem, vi que isso era muito dinheiro pra uma viagem de bike nos moldes bem simples. Economizei bastante e com esse mesmo orçamento pude viajar por quase 2 anos – ou seja, o orçamento dela foi de R$35,00 por dia. 😉

11. E como financiou a viagem?

Bom, financiei a viagem com muito trabalho…SIM….trabalhei duro antes de sair, por mais de um ano, abri mão de muitas coisas em prol deste sonho…enfim, fiz uma poupança.

Antes de sair vendi as poucas coisas que tinha: um carro usado e algumas coisas de casa.

Consegui dinheiro suficiente pra viajar por um ano, sob a minha ótica inicial.

Fiz uma vaquinha na Internet, onde vendia fotos da viagem. Funcionava assim: cada um podia contribuir com o quanto quisesse e eu enviava um postal para a pessoa. Isso foi algo natural, não divulguei muito, mas muitas pessoas me ajudaram por este meio.

Durante a viagem descobri outras maneiras de financiar também…vendendo (mas na maioria das vezes trocando) fotos, comidas e artesanato.

Viajar de bicicleta é uma mágica! Descobri que com muito pouco é possível viver, então o dinheiro rende e você pode descobrir outras formas de se financiar, que não envolvam necessariamente o dinheiro. Como a troca de trabalho por hospedagem, alimentação, e ,como eu fiz, dar pequenas coisas às pessoas que ajudam.

É uma maneira de deixar um pouco da sua energia no caminho e de não sentir apenas recebendo, mas também retribuindo algo ao Universo.

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12. Quais itens você viu que eram muito úteis e que recomendaria?

Começo pela frigideira. SIM. Já no meio da viagem, comprei uma frigideirinha, bem pequena, mas essas de verdade, de teflon. Gente, minha vida mudou depois desta frigideira. As comidinhas tinham cara de feitas em casa. O ovinho frito saia perfeito. Omeletes. Verduras refogadas. Como diria meu amigo, até tortilhas espanholas eu consegui fazer. Sem contar que no Brasil, todos os dias tinha tapioca!!! Por isso, é um item que super recomendo.
Outro item que foi muito útil foi a rede. Mas calma, não essas redes grandes. Usei uma bem compacta da marca Kampa. Não pesa quase nada e poder tirar aquele cochilo depois do almoço, debaixo da sombra de uma árvore, não tinha preço.
Outra coisinha que foi minha companheira do começo ao fim foi uma garrafa térmica. Gente, isso é qualidade de vida. Imagina, no inverno ter aquele chá quentinho, quando as temperaturas castigavam. E no verão, quando bate aquele sol, que ninguém aguenta mais, você tira a garrafinha e a água ainda está gelada. Gente, sério é tudo de bom.
Tenha um lençol. Sim, um lençol de solteiro. É uma delícia deitar no colchão inflável, essa coisa plástica, com um lençol por cima. Parece que você está numa cama de verdade. E no verão não tem nada melhor pra dormir. Passei a fazer isso quando estava pedalando pela Colômbia. De tanto calor mal podia olhar pro meu saco de dormir. Foi aí que decidi comprar um lençol e foi a melhor coisa do universo!

13. Levava quantas bolsas?

Eu levava 5 bolsas. Basicamente divididas da seguinte forma:

  • Dianteiras: uma com comidas e outra com coisas de cozinha, como panelas, luzes e algumas coisinhas mais.
  • Traseiras: nas duas laterais levava basicamente, roupas, sapatos, artigos eletrônicos.Na que ficava em cima da garupa levava barraca, colchão inflável, saco de dormir, rede..

14. E quantos litros de água?

Normalmente levava no mínimo 2 litros.

Mas em alguns momentos da viagem levei bem mais, principalmente quando passei por regiões desérticas em que não sabia onde poderia reabastecer.

15. Quais itens você levou para a viagem e que acabou não usando?

Quando você pensa na viagem, as coisas que você imagina que serão necessárias tem mais relação com sua vida atual do que com a sua vida futura…Então, claro, levei algumas coisas que não usei nada, como:

Algumas roupas (vestido -saí com 2 acreditem, blusinhas), maquiagem (acreditem, eu coloquei na necessaire base e blush), camelback (aquelas mochilinhas com reservatório de água), creme de corpo/rosto (no fim fiquei usando só bepantol e hipoglós pra tudo…hidratação de corpo e rosto).

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16. Você tem alguma história engraçada ou interessante que queira compartilhar com a gente?

Estava com uma amiga pedalando pelo Equador. Era uma rota com algumas subidas boas. Eu ia um pouco à frente da minha amiga, pedalando no meu ritmo (nas subidas é assim, cada um, pro seu bem, tem que seguir no seu ritmo).

Já no meio da subida vejo que passou por nós uma van. O carro passou lentamente e lá na frente parou.

Confesso que não fiquei com medo. Primeiro porque eu estava na companhia da minha amiga e depois porque com quase um ano de estrada, já sabia que se as pessoas param normalmente é por alguma boa razão.

Se fosse no início da viagem, tenho certeza que pensaria mil e uma besteiras do tipo: “o que será que essas pessoas querem comigo? E se for alguém que quiser fazer algo? Nós aqui no meio dessa subida, não tem nada o que fazer! Ai, minha nossa senhora da bicicletinha!”

Então, eu me aproximava do carro, quando de repente sai lá de dentro uma repórter e um camera man. Não deu tempo de pensar, nem de sequer dar uma ajeitada no cabelo (rs) e ela já veio com seu microfone fazendo mil perguntas. Minha amiga finalmente chegou e o foco passou a ser ela também.

No final foi divertido! Tínhamos ainda alguns chaveiros, que fazíamos pra ir vendendo no caminho. Eles viram e compraram TODOS!!! Pensamos: “que pena que não fizemos mais a noite passada!”

Essa foi uma das boas histórias que sempre aconteciam pelo caminho!

17. Dos locais que conheceu, quais indicaria para seus amigos?

Eu gostei muito de conhecer a América do Sul tal como eu conheci. Foi uma real imersão nestes países.

Nós brasileiros somos muito acostumados com Argentina e Chile, estes dois países são mais turísticos pra gente.

Mas quase não ouvimos falar no Equador. Eu adorei este país, é bem pequeno, mas é incrível. As pessoas são muito gentis e as paisagens são lindas. numa viagem de carro ou ônibus (e até mesmo de bicicleta) você pode conhecer todo país. Tem a parte da Amazônia que é linda, além da parte dos Andes com vulcões e montanhas maravilhosas. E o litoral, que pra gente não é tão impressionante, pois nosso litoral é lindo. Achei impressionante a estrutura dos Parques Nacionais..são ótimos, possuem refúgios de montanha e muitos treckings são possíveis sem a ajuda de um guia, pois os parques são bem sinalizados. Vale a pena conhecer!!!

A Colômbia amei também, me senti como no meu país. Foi o país que mais tempo fiquei. Também possui paisagens lindas, desde a selva à cordilheira e o mar do Caribe, que é realmente lindo. Mas este país ganha qualquer um pelas pessoas. Não tem como não amar os colombianos!!!

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Voltando da Viagem de Bicicleta: Cicloturismo na América do Sul

18. Quais as principais diferenças que você nota em si mesma agora em relação a antes de iniciar a jornada?

Acho que a mudança que uma viagem como essa traz é realmente muito grande. A oportunidade de viver a vida de uma maneira tão simples, de estar em situações tão extremas, de ter contato com pessoas de variados níveis sociais e culturais e principalmente a oportunidade de estar com a melhor companhia, a gente mesmo, nos traz um crescimento muito grande.

Eu me vejo uma pessoa ainda mais tranquila, sou feliz pelas coisas simples da vida e aprendi a valorizar ainda mais cada detalhe, a água, o sol,a chuva, a comida, a família, o banho quente, as pessoas…

A gente aprende que somos um grão de areia neste mundo, mas que cada um tem uma importância fundamental nas suas ações. Eu não preciso querer mudar o mundo, mas posso fazer meu mundo melhor.

Voltei com essa filosofia, de tentar fazer melhor a minha vida nos pequenos detalhes, ser mais leve, valorizar o que merece o seu valor.

Mas acho que além disso tudo a viagem me fez realmente ver que eu sou do tamanho do meu sonho, que o que eu acreditar, sonhar, eu serei capaz de realizar. Além de auto reconhecer minha capacidade pra ser dona das minhas vontades, vi que o mundo não é tão perigoso como eu achava que era e que sim, as pessoas são boas.

19. Agora que está de volta a sua casa e trabalho, como tem sido o processo de readaptação?

Essa etapa é um pouco complicada, mas está evoluindo aos poucos.Eu comecei a viagem com planos de terminar um dia. Como eu disse antes, saí pra viajar inicialmente por um ano e acabei ficando dois.

Passei por muitas mudanças internas e na minha rotina de vida (ou falta dela). Estes dois anos de viagem foram completamente atípicos pra mim. A vida tomou um rumo diferente e não me via sentada em uma sala de algum escritório na frente de um computador.

O mundo era muito dinâmico. Voltar à antiga rotina é complicado por isso. Você se acostuma a estar cada dia em um lugar diferente, interagindo com pessoas diferentes e a impressão de estar em uma sala de escritório, inicialmente é a de que a vida está passando, lá fora, e eu estou presa aqui dentro.

Mas eu fui me preparando aos poucos, sei reconhecer que a possibilidade de sair e desfrutar destes dois anos foram em função do meu trabalho, que me permitiu ter este tempo e também as condições financeiras para tal.

A minha equipe me recebeu de braços abertos, de maneira a colaborar neste processo de readaptação. Isso foi bem importante. Estou feliz, porque tive a oportunidade de viajar e voltar com a tranquilidade de ter um trabalho, algo que nos dias atuais é complicado.

Mas toda essa experiência me abriu os olhos pra explorar outros lados, fora desse ambiente operacional. Fazer coisas que tem muito sentido com o que eu penso e serem também uma maneira de ganhar algo de dinheiro.

Quero com o tempo me dedicar a fazer objetos com materiais reciclados provenientes de bicicleta, como câmara de ar e corrente. Com isso exercer uma atividade que seja bem prazeirosa e até terapêutica.

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20. Faria algo de diferente para uma próxima aventura?

SIM!!! Acho que no início da viagem tinha muita pressa. Ia rápido demais. A vontade de pedalar e de avançar era enorme.

Mas depois, principalmente quando comecei a viajar com outras pessoas, vi que essa pressa toda era desnecessária.

O bom da viagem é desfrutar do caminho…se der vontade de ficar, aceita e fica…se der vontade de seguir…avança…escuta o coração. E assim eu passei a fazer e comecei a viajar no passo do meu coração.

Sinto, às vezes, de não ter ficado mais tempo com algumas pessoas que conheci no início da viagem…mas faz parte..são coisas que aprendemos com o tempo!

21. O que você diria para si mesma 2 anos e meio atrás?

Não tenha medo, o mundo é bom e, com certeza vai dar tudo certo!

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Autor

Oi! Sou co-fundadora do Local Planet e diretora da Enlink, agência de marketing digital. Nascida e criada em Foz do Iguaçu - PR, pratico escalada em rocha e corrida de rua, sou DJ no Brothas N Sista, fã de alimentação saudável e programações culturais.

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