Uma forma de aprender a meditar e entender a prática, é participar de um curso de meditação Vipassana, que acontece em diversas cidades do mundo.

Cada curso é uma experiência de imersão durante 10 dias, de muita introspecção (porque se faz também voto de silêncio) e que não visa lucro para os organizadores (são gratuitos).

Achei a ideia muito interessante logo de cara, mas levou um certo tempo entre ouvir a respeito e de fato ir fazer o curso…

Aperte o play – Sugestão de trilha sonora para a leitura:

(Imagem: Wixstatic)

Isso porque o Gabriel, meu marido, já praticava há anos. Eu respeitava e via que fazia muito bem a ele, mas achava que não era para mim!

Eu pensava que meditar era conseguir ficar sentada, imóvel, com a mente muito tranquila. E francamente…eu não conseguia fazer nada disso. Ficar em silêncio então? Será que eu conseguiria?

Então lendo o livro A Arte de Viver, que fala sobre o curso, percebi que meditar é para qualquer pessoa (mesmo para as mais agitadas). E também que essa técnica de meditação é muito prática e lógica. 

Fiquei fascinada! Logo que terminei a leitura, me inscrevi pela internet em um curso de 10 dias e me preparei para a viagem.

Aí parti para o que acabou sendo uma das experiências mais incríveis da minha vida <3

 

O que é meditação Vipassana?

Se trata de uma técnica de meditação antiga, redescoberta há 2.500 anos na Índia por Siddhartha Gautama, o Buda.

A técnica foi preservada em monastérios, até que foi popularizada e começou a ser ensinada no mundo por Sri Satya Narayan Goenka em 1969. Sete anos depois foi fundado o primeiro centro de meditação.

Desde então, cerca de 2 milhões de pessoas já participaram de um curso, atualmente realizados em mais de 180 centros espalhados pelo mundo.

Vipassana significa “ver as coisas como são”. A técnica mostra o caminho para cada um tomar o controle sobre sua mente e vida. 

Foca na conexão entre a mente e o corpo, que pode ser experimentada por cada pessoa, por meio da atenção às sensações físicas.

As leis científicas que acionam os pensamentos, sentimentos, julgamentos e sensações tornam-se claras. Essa jornada de auto conhecimento baseada na observação, pouco a pouco vai dissolvendo as impurezas mentais.

(Fontes: Dhamma.org e Clarin)

 

Como é o curso de meditação Vipassana?

Boas vindas em um dos cursos do centro em Santana de Parnaíba – SP (Imagem: Dhamma Sarana)

Imagine um local cercado por muita natureza, com cerca de 50 pessoas de cada gênero convivendo em silêncio.

Toda estrutura concedida por meio de doações e um grupo de servidores trabalhando voluntariamente.

Isso tudo envolvido em um só propósito: o auto-conhecimento.

Assim foi mais um dos cursos de 10 dias de meditação Vipassana.

O meu primeiro foi em São Paulo. Voei até Guarulhos e de lá peguei uma carona, organizada por meio do sistema do curso, para chegar tranquilamente ao centro de meditação.

Chegando lá, fiquei impressionada com a beleza do local e serenidade das pessoas que nos recebiam.

Entre os novos meditadores tinha um misto de curiosidade, preocupação e euforia. A gente tentava prever como seriam os próximos dias e fazíamos perguntas para os alunos antigos, que estavam lá para fazer o curso de novo.

O sino bate! Tivemos uma reunião, jantar leve e já a primeira meditação do curso (e uma das primeiras da minha vida). Começava também o voto de silêncio.

“Aí vamos nós!”, eu pensei.

Se inicia o curso com a técnica de meditação Anapana, concentrando a atenção na respiração. Tem objetivo de desenvolver essa consciência, concentração e sensibilidade.

Uma das sessões de meditação em curso no centro de Santana de Parnaíba – SP

(Imagem: Dhamma Sarana)

No dia seguinte a rotina diária começava: acordar às 4h da manhã e iniciar as sessões de meditação, que acontecem ao longo de todo dia e com durações variadas de 1 a 2 horas cada.

O ritmo do curso é intenso, mas também progressivo. Logo eu já estava adaptada e ia lidando com um desafio de cada vez.

Durante todos os dias há instruções de como aplicar a técnica, que são dadas por meio de gravações em áudio do professor S.N.Goenka.

As instruções são muito didáticas, sendo explicadas de formas repetidas e de diferentes formas, para reforçar os ensinamentos.

A cada dia a meditação e introspecção vão gerando mais sensibilidade e fui conhecendo o meu corpo e minha mente de uma forma que jamais poderia imaginar.

Vinha um determinado pensamento negativo e imediatamente percebia o reflexo disso no meu corpo: pressão no peito, calafrios, acidez no estômago. Pensamentos positivos geravam sensação de leveza ou calor no peito.

Cada uma dessas pequenas sensações unida à prática de não reagir, causa uma mudança tremenda dentro de si mesmo! Além disso, aprender a prestar atenção nas sensações do corpo traz sua mente para o momento, para o agora.

Todo esse aprendizado é acompanhado também por palestras feitas pelo Goenka em áudio todas as noites e que são recheadas de sabedoria.

Ah, as meditações são sempre intercaladas por refeições vegetarianas simples e deliciosas. Para veganos, intolerantes e outros, basta informar as necessidades especiais durante a inscrição e eles providenciam tudo.

Esse carinho e cuidado de todos envolvidos na organização e realização do curso também são muito comoventes. Gera uma verdadeira corrente do bem (:

 

O que aprendi no curso de meditação

(Imagem: The Greenest Post)

Participar do curso foi uma oportunidade única de passar 10 dias comigo mesma, olhando apenas para dentro.

Então apesar da minha boca estar em silêncio, pude perceber que minha mente não. Como dominá-la (ao invés dela a mim)?

Sem perceber, eu dava nós e mais nós na minha vida. E achando que estava tudo bem!

Um dos conceitos chave da técnica Vipassana é “Anicca”, que significa “lei da impermanência”, traduzido do idioma pali.

Tudo está sempre mudando. Aceite, observe objetivamente e não multiplique. Isso aprendemos a praticar durante o curso.

Foi também uma oportunidade de viver como um monge ou monja. Porque além da meditação intensa, tudo que recebemos durante o curso foi por meio de doações.

Então recebia e apenas agradecia de coração. Sem exigências ou críticas, como costumava fazer.

Já no primeiro curso, eu vi na meditação Vipassana uma ótima ferramenta para enfrentar qualquer desafio. Com a continuidade da prática tenho conseguido ver o grande impacto no meu dia a dia. Então agradeço, mais uma vez, por ter a oportunidade de praticar.

 

Café da manhã no refeitório feminino (Imagem: Vira Volta)

No último dia do curso, quando o voto de silêncio é finalizado, pude conhecer meus colegas meditadores, que eram dos perfis mais variados: tinham universitários, professores de yoga, psicólogos, senhores aposentados e até uma gestante.

Das mais variadas profissões e também religiões. Em caminhos de busca tão distintos…e ao mesmo tempo tão similares!

Foi muito legal poder trocar experiências, ideias, conhecer as motivações e desafios de cada um.

Antes de vir, sentia medos e inseguranças que a maioria dos “marinheiros e marinheiras de 1a viagem” devem sentir:

  • “Mas eu nunca meditei, será que vou conseguir?”
  • “E fazer voto de silêncio por 10 dias, será que é pra mim?”
  • “Aaah, mas eu tenho problemas na coluna, joelhos, quadril. Não vou conseguir!”

Enfim, nossa mente arruma desculpas, querendo enganar a si mesma para não vir.

Mas depois de fazer a inscrição, se organizar e chegar no centro de meditação eu percebi: o mais difícil ficou para trás. Se eu cheguei até aqui, eu vou conseguir!

Durante os 10 dias de meditação as coisas parecem tão claras. Eu pude enxergar a felicidade e o sofrimento que crio para mim mesma, aqui e agora.

Mais importante ainda: conheci uma prática (e poderosa) ferramenta para lidar com tudo isso.

Ainda tenho um longo caminho pela frente. Mas já pude perceber que sim, a liberdade é possível!

E é linda ♡

No último dia de um curso no centro Dhamma Sarana, em São Paulo (Imagem: Local Planet)

Liguei para minha mãe assim que terminou o curso:

“Bem vinda ao mundo real”, disse ela.

Eu respondi que “na verdade, eu sinto que tava no mundo real. E agora voltando para o mundo da ilusão”.

Pois é, voltando sim. Mas com mais leveza, mais paz, mais harmonia. Espero também que muito mais atenta, para manter essas qualidades pelo maior tempo possível.

Ou pelo menos até o próximo curso! Hihi

 

Para conhecer mais

O livro A Arte de Viver, do autor William Hart, pode ser uma ótima introdução ao tema. Trata sobre a técnica e transcreve as palestras gravadas em áudio do professor S.N.Goenka, que são transmitidas durante os cursos de 10 dias.

O livro está disponível em:

Essa leitura foi um dos meus primeiros contatos com meditação Vipassana. Foi muito bom para ver se eu tinha afinidade com a técnica. Também me ajudou demais durante meu primeiro curso, porque já tinha lido e refletido a respeito de muitas coisas tratadas ali, então tive mais facilidade em mergulhar no processo.

Tem também um documentário sobre a realização de um curso de Vipassana em presídio na Índia, que vale muito a pena assistir.

 

Como se inscrever em um curso?

Curso de meditação Vipassana em Curitiba, em local alugado chamado Casa de Cursilhos (Imagem: Local Planet). 

Os cursos acontecem no mundo todo e em diferentes datas. Todos os locais e datas estão disponível no site Dhamma.org.

No Brasil há centros próprios no Rio de Janeiro (em Miguel Pereira) e São Paulo (em Santana de Parnaíba). Também em muitas outras cidades em locais alugados: Curitiba – PR, Caeté – MG, Ilhéus – BA, Brasília – DF.

A participação é gratuita. Você receberá as aulas, hospedagem e alimentação como doação a você.

Depois de completar pelo menos um curso de 10 dias, você poderá doar de acordo com sua disponibilidade para que mais alunos possam ter acesso ao aprendizado.

Para participar de um curso também não é preciso saber meditar. 

As inscrições são feitas pelo site: https://www.dhamma.org/pt/courses/search

É só fazer a busca pelos cursos disponíveis e a partir da abertura da inscrição preencher um formulário online. A aprovação ou não e outras comunicações são feitas por email.

Como as vagas são bem disputadas, sugiro pesquisar com antecedência e salvar na agenda a data de abertura das inscrições. Então se programar para se inscrever muito cedo na data de abertura, porque as vagas costumam acabar rápido (em menos de 24 horas e às vezes até antes para as mulheres).

Eu geralmente entro logo depois da meia noite da data que abre a inscrição, mas você conseguindo fazer até meio dia, costuma ainda ter vagas.

Caso a sua inscrição não seja aceita na primeira vez, não desista! Tente de novo na próxima data ou em outra cidade. Vai valer a pena!

 

Só vai…e seja feliz! (:

 

Autor

Oi! Sou co-fundadora do Local Planet e diretora da Enlink, agência de marketing digital. Nascida e criada em Foz do Iguaçu - PR, pratico escalada em rocha e corrida de rua, sou DJ no Brothas N Sista, fã de alimentação saudável e programações culturais.